UMA DÚVIDA QUE ME ASSOLA

Uma das primeiras mensagens que qualquer viajante num avião se depara é: “Por favor senhores passageiros, desliguem os telemóveis ou coloquem os aparelhos em versão modo de vôo a partir deste momento”.

Rui Pedro Oliveira
20 de Dezembro de 2014
Uma das primeiras mensagens que qualquer viajante num avião se depara é: “Por favor senhores passageiros, desliguem os telemóveis ou coloquem os aparelhos em versão modo de vôo a partir deste momento”.

Os aparelhos em modo de vôo, impedem os mesmos de terem ligações ativas quer de rede wireless, dados ou gsm / umts, ficando offline.

A explicação dada é que o uso de telemóveis dentro da aeronave, podem interferir nos instrumentos de navegação colocando em causa o bom funcionamento e afetando a segurança do vôo.

Teoricamente, à distância de um clique de mudar o telemóvel da versão offline para online, todos os passageiros são portadores de uma “bomba” letal, capaz de colocar em causa o funcionamento do segundo meio de transporte mais seguro do mundo (o primeiro estatisticamente comprovado é o elevador).

Há dois anos, numa viagem entre Frankfurt e Joanesburgo a bordo de um moderno Airbus A380 que transportava cerca de 600 passageiros distribuídos pelos seus dois pisos, fiz os meus procedimentos normais em vôos de longo curso. Acomodei o meu smartphone juntamente com uns livros, o computador e outros adereços na minha pequena pasta que costumam ser meus companheiros de viagem. Há tempo para tudo em dez horas e meia de viagem, para ler, para dormir, para trabalhar, para escrever e para ouvir um pouco de música ou ver um filme. É o sítio idílico para se “meter o trabalho em dia” pois o telefone não toca, os emails não chegam (dizem os especialistas que quando estamos a meio de um trabalho e recebemos um email, demoramos 22 minutos a recuperar a concentração) o silêncio normalmente imprime concentração em alternância com as refeições servidas a bordo.

O sistema de entretenimento destes aviões é de tal maneira diversificado, sofisticado e repleto de tantas novidades que quase nem preciso de recorrer às minhas playlists que carrego no telefone diariamente. Se um avião de médio porte tem cerca de 26.000km de cablagens o que permitia dar uma volta ao mundo em cabos elétricos, imaginem um gigante dos ares tão recente que aliando a toda a sua imponência, alcançando a sua altitude de cruzeiro, deixa silenciosamente sair das asas uns pequenos aerogeradores que aproveitando a força do vento contrário à deslocação do avião permitem poupar combustível aproveitando a energia eólica para gerir o controlo electrónico das luzes internas do avião assim como o ar condicionado - este pequeno aparte, para referir a tecnologia de ponta de um autocarros dos ares desta envergadura -

Assumindo-me claramente um dependente do telemóvel (embora deteste falar ao telefone, irrito-me ligeiramente quando as chamadas passam um minuto) sou mais dependente da conectividade. Saber que estou contactável, saber que estou acessível à informação que necessito, é igualmente uma dependência que me impele instintivamente a mal o avião aterrar, ligar logo o telefone para ver as mensagens, chamadas, emails ou outras formas de comunicação que possa ter recebido em tal hiato de tempo, tentando otimizar o mesmo até “cavalgar” até à zona dos passaportes onde (também não sei porquê) nos impedem de usar os telemóveis. Talvez um fetiche da aeronáutica.

A maior surpresa nessa viagem, foi quando tentei todos os esforços para o telefone ligar, mas infrutífero ainda dentro do avião. Não dava qualquer sinal de vida. Que belo dia para o Iphone falecer, pensei eu. A segunda surpresa foi à pressa arranjar um sitio onde carregar um pouco o telemóvel para ver se era um problema de bateria e quando ligou, verificar ter inúmeras mensagens de texto, e que nenhuma era a normal mensagem de roaming quando se aterra na África do Sul de um dos três operadores sul africanos, Vodacom, MTN ou Cell C, mas sim inúmeros SMS de operadores telefónicos da Suíça, da Áustria, de Itália, da Tunísia, da Líbia, do Níger, do Chade, do Congo, da Zâmbia, do Zimbabwe, do Botswana e de Moçambique, sendo que alguns destes territórios havia mais que uma mensagem de texto enviada, como que uma disputa normal em que cada antena emissora de sinal de telemóveis em “open field” alcança cerca de 20 a 30 km o que facilmente assegura uma ligação a quem voa a apenas 10 km do alcance das mesmas.

O telemóvel lamentavelmente (e digo lamentavelmente pois sou cumpridor das normas de segurança e acima de tudo da existência de bateria no mesmo) foi ligado o caminho todo fazendo um esforço enorme para captar rede telefónica que tanto ansiava sucumbindo pelas minhas contas a escassos minutos da aterragem quando alcançando uma rede telefónica mais estável perto de terra, se sentiu confortável a descansar um pouco.

E descansei eu um pouco também. Não gastei os euros exacerbados que podia ter gasto quando se pretende fazer uma chamada telefónica do avião (talvez um dos motivos para não se poder usar o telefone pessoal) não incomodei nem fui incomodado pelos toques e berros que muitos insistem em ter no manuseamento do telefone móvel (outra razão do descanso que se tem nos aviões ao contrário dos comboios) e também por não ter posto em causa a segurança de ninguém naquele voo (ou será que pus?)

Uma coisa é certa, a minha “bomba” não despoletou nada de grave na aeronave nem sei quantos anormais como eu possam ter tido o mesmo desleixo, mas é certo que há meios para silenciar as conexões dos telemóveis, seja o usado em cinemas, teatros ou óperas, como existe num perímetro em Washington perto da Casa Branca ou no Pentágono, porque não existe o mesmo método nos aviões se a lógica é a proibição?

Revista Digital Start&Go

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