A Avaliação

Não. Não se trata de avaliação de professores, não obstante esta distinta classe estar na ordem do dia.

Rui Pedro Oliveira
1 de Novembro de 2015

Não. Não se trata de avaliação de professores, não obstante esta distinta classe estar na ordem do dia. No oriente e nos países escandinavos, o professor é somente a profissão mais respeitada na sociedade. São os únicos que no Japão merecem uma vénia ao serem cumprimentados como implícita o amplexus ao imperador. Não por uma questão protocolar (o imperador será) mas sim porque são os Arquimedes da sapiência, educação e valores que são transmitidos aos nossos filhos em prol de uma geração douta, disciplinada e respeitadora. Não são avaliados, não precisam. São os melhores que podem ensinar e esse estatuto só está ao alcance dos dotados para tal.

 

No caso de quem em Portugal anseia por “inventar”, por patentear novas ideias e as quer colocar no mercado, o normal é deparar-se com obstáculos por vezes verdadeiramente intransponíveis. São os bancos que não ajudam, são os investidores que não arriscam e são as capitais de risco que colocam nos poderes de decisão (os eventuais habituais gatekeepers) em pessoas com curricula interessante na área de gestão mas pouco avalizados para poderem decidir qual o impacto que uma nova ideia pode ter na sociedade e a nível comercial. Deparei-me há largos meses, anos dizendo, com um individuo que analisava os novos mercados em que uma capital de risco queria investir. Teve uma reunião sobre um produto tecnológico comigo, precedida de uma reunião com um biólogo em que teria que analisar a descoberta de uma molécula que revolucionaria (nas palavras do inventor) o já existente na microbiologia atual, e colmatando com uma terceira reunião em que analisaria o porquê de um investimento numa área agro-alimentar de uma tecnologia medicinal para irradiar a presença de salmonelas e “outros bichinhos” em alimentos. Que género de conhecimento poderia este notável gestor, fazer uma avaliação de produtos tão díspares na sua essência, com complexidades extremas, a não ser um conhecedor de generalidades? Todas estas avaliações são dotadas de extrema tecnologia para alguém ser avalista de uma recusa ou aceitação por parte de um investidor, com demasiada complexidade para alguém que saiba muito de muito mas pouco do que interessa especificamente. É uma questão de avaliação e uma proposta de avaliação do avaliador.

 Há uns meses, e agora meses mesmo, tive uma reunião com dois advogados de um notável escritório de advogados sediado em Boston especialistas em propriedade intelectual. Redigiam patentes, e percebi que não só. No começo da reunião, em que apresentei uma patente que pretendia ser redigida pelos mesmos, dei o “drive” geral do que pretendia que meia dúzia de esquiços e textos sobre a mesma, fossem traduzidos numa patente para estar presente em quase 150 países. Após uma conversa circunstancial na sua majestosa sala de reuniões, passamos ao projeto em que estavam presentes dois advogados ambos formados em Harvard, provavelmente a escassos quilómetros das suas residências. Um sénior, vestindo umas simples calças bejes e camisa branca que seria o orientador do projeto, por sinal um conhecedor profundo de “soccer” europeu e português, inclusive não falava somente de Mourinho e Ronaldo mas sim de Humberto Coelho, Gomes (bi-bota) e até de Carlos Secretário e um “trainee” de fato e gravata imaculada mais reservado mas atendo, ambos num espírito “american way” de simpatia, simplicadade e cortesia. Passados estes momentos mais descontraídos mas importantes na solidez de uma relação profissional, lá começamos a falar do produto, e fiquei surpreendido quando começaram a falar de conectores, jumps, switches, transmissão de dados e software, como se estivesse presente aos mais doutos engenheiros incapazes de formular ou interpretar qualquer lei como advogados que eram de formação e curriculum obtido. Fiquei verdadeiramente impressionado na altura com saber destes juristas e por serem um entusiastas de tecnologia admitia eu. Redondamente enganado como muitas vezes. Quando Portugal jogou um jogo de futebol em Providence, a poucos quilómetros de Boston, convidei o Jack para ir ao futebol comigo, e numa conversa mais descontraída, percebi que ele usava um anel de curso do MIT, o que me deixou intrigado. Como um advogado de Harvard usava um anel de curso tecnológico? Simples. O Jack era engenheiro e depois tirou o curso de direito, assim como o trainee Peter. Qualquer advogado de propriedade industrial nos EUA para exercer nesta área tem que primeiro cursar Engenharia e depois Direito. Só assim são avalizados para avaliarem e submeterem uma patente. Por isso são os melhores para poderem avaliar... 

Simples a excelência, não?

 

PS: O Humberto Coelho estava também a assistir ao jogo ao nosso lado, e o Jack reconheceu-o de imediato.

Revista Digital Start&Go

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