Decidir bem, sempre, pode não ser o melhor para si... 

Gonçalo Gil Mata
1 de Julho de 2018

Todos sabemos: a disciplina é um reservatório finito. Gasta-se de cada vez que adiamos gratificação imediata em prol de um bem maior. Talvez surpreendente para alguns, é que essa mesma reserva é consumida ao processarmos decisões!

Uma decisão exige avaliar alternativas. Consequentemente, depois do facto consumado, pontuamos a própria decisão para no futuro repetir (se foi bem), ou fazer diferente (se nos arrependemos). Prolongando-se este processo, falamos de "ruminação".

Estamos a ruminar por exemplo ao revermos repetidamente uma certa discussão, analisando tudo o que devíamos ou não ter dito. Cansa tanto ou mais que a decisão em si, e embora parta de uma intenção positiva de melhoria contínua, ruminar pode no entanto tornar-se uma armadilha inconsciente e roubar demasiado espaço a um simples bem-estar.

Evite o processo de ruminação mental a cada decisão

Quase automaticamente, podemos cair na tentação de escolher, sempre, e a toda a hora, as melhores alternativas para todos os detalhes da vida, neles investindo energia e esforço: o melhor lugar de estacionamento, o melhor lugar da esplanada, a melhor refeição do menú, o melhor lugar no cinema, a melhor fila do supermercado, o melhor papel higiénico... E se mais à frente passamos por um lugar de estacionamento ainda mais perto, sentimos uma ligeira mordidela de pena e ruminamos se deveríamos ter feito melhor.. É, a carreira de otimizador profissional cansa!

Creio que não há dúvida: o melhor lugar de estacionamento é... melhor! De facto, cada processo de escolha é totalmente justificado dentro do seu mundo, dos seus critérios próprios. Mas, no meio de tanta otimização "local", corremos o risco de "desotimizar" aspetos mais globais. Por exemplo a tranquilidade, a liberdade de não ter que decidir bem, a liberdade de não pensar mais no assunto, a qualidade da atenção a um filho, suspenso durante esse intenso momento de eficiência local: "Agora espera! Estou a escolher o melhor lugar de estacionamento... Quanto mais perto, mais tempo vou poupar. Tudo somado, ao final do dia, sobrará então algum para ti... se ainda te apetecer falar."

Decida mais, arrependa-se menos

Poder decidir não ter que decidir bem, quase deixando que o mundo decida por nós, expande a experiência de cada momento. Permite dar espaço a um mundo de sensações que desejamos, e que estão aí mesmo à mão de saborear. O caricato e paradoxal é que são as mesmas sensações que tanto nos esforçamos por garantir durante os elaborados processos de decisão, sem ver que eles próprios nos podem afastar do que queremos.

Hoje lanço-lhe o desafio de, apenas por uns dias, escolher com menos afinco as pequenas coisas do dia-a-dia. Quanto ao espaço mental que daí sobrar, não o preencha: deixe-o meramente aberto à possibilidade de coisas boas o ocuparem...

Boas práticas!

Artigo em formato PDF

Revista Digital Start&Go