10 de Janeiro de 2026


ANA MARIA SOUSA

Formadora e Mentora em Desenvolvimento Estratégico de Negócio e Gestão de Clientes



Fará sentido para o desenvolvimento do negócio pertencer a Associações ou Redes?





P ara responder a esta questão é importante analisar o contexto externo e interno atual e tendências de futuro, e se a resposta for positiva definir os benefícios pretendidos, para de seguida identificar Associações ou Redes que respondam a esses objetivos.

Sem me centrar em nenhum negócio em particular, apresento de seguida uma estrutura de reflexão, assente em algumas metodologias e ferramentas e organizada nas três fases acima referidas: análise do contexto, definição de objetivos e tomada de decisão.

1. Análise do contexto externo e interno

Contexto externo e relevância do associativismo

A aplicação da ferramenta de análise estratégica PESTAL ao considerar os fatores Políticos, Económicos, Sociais, Tecnológicos, Ambientais e Legais, facilita a análise do contexto externo. Percorrendo estes fatores verificamos a existência de algumas forças favoráveis ao associativismo, como por exemplo:




As alterações políticas, as mudanças nas agendas governamentais, a nova forma de fazer política, as tensões geopolíticas e a redefinição de alianças impactam a competitividade e as cadeias de abastecimento das empresas. Assistimos também a políticas públicas cada vez mais ambiciosas em sustentabilidade, transição energética, digitalização e proteção de dados.

Neste contexto, a associação a outras empresas pode reforçar a capacidade de adaptação, facilitar o acesso a informação crítica e aumentar o poder de influência e negociação junto dos decisores políticos.

A instabilidade dos mercados globais, as guerras comerciais e a volatilidade das taxas alfandegárias e dos preços das matérias-primas, bem como os constrangimentos nas cadeias de abastecimento, impactam os custos operacionais e os riscos financeiros das empresas. Paralelamente, a escassez de talento qualificado e o aumento dos custos energéticos e logísticos reforçam a necessidade de soluções colaborativas.

A integração em redes ou associações pode permitir mitigar estes impactos, otimizando recursos, partilhando infraestruturas, gerando economias de escala e o acesso a novas oportunidades de negócio.

As expectativas crescentes dos stakeholders, com clientes, colaboradores e sociedade a exigirem cada vez mais colaboração para enfrentar problemas sistémicos como as alterações climáticas, a circularidade ou a responsabilidade social.

Adicionalmente, num contexto em que a confiança, a atenção e o tempo se tornaram recursos particularmente escassos, pertencer a Redes ou Associações poderá ser um fator de reputação importante atraindo clientes, colaboradores e parceiros.

A velocidade e a complexidade dos avanços tecnológicos em particular da Inteligência Artificial

tornam difícil às empresas acompanha­rem sozinhas tendências, benchmarks e novas práticas, sendo o trabalho em rede um facilitador.

O aumento da complexidade dos problemas e das tecnologias exige cada vez mais a colaboração entre diversas áreas e organizações e a construção de ecossistemas colaborativos.

Desafios ambientais globais como as alterações climáticas, a transição energética, a escassez de matérias-primas, as exigências da transição para uma economia circular e a sustentabilidade reforçam a necessidade de estratégias colaborativas para encontrar e implementar soluções sustentáveis.

Normativo cada vez mais complexo e exigente, crescimento de normas e regulamentos nacionais e internacionais que impõem obrigações concretas em áreas como ESG, reporte de sustentabilidade, digitalização e privacidade de dados.

Pertencer a associações ou redes setoriais pode facilitar a atualização e permitir um alinhamento mais eficaz com estas exigências, a partilha de boas práticas e a redução dos riscos legais e de reputação.

A análise do sector ou da indústria em que a empresa se encontra utilizando, por exemplo as “Cinco Forças de Porter”, ou seja, avaliando a ameaça de novos entrantes e de produtos substitutos, o poder dos fornecedores e dos clientes e a intensidade da rivalidade entre os concorrentes existente poderá ajudar a perceber se para aquele negócio ou empresa fará sentido pertencer a uma determinada Associação ou Rede.

Verificamos, de facto, a existência de múltiplas associações setoriais, algumas delas que procuram, de forma clara, mitigar estas forças via: redes de compras conjuntas, criação de normas técnicas, formação especializada, acesso a novos mercados, promoção da inovação ou da cooperação.

Contexto interno e relevância para a empresa

Neste caso há que identificar os pontos fortes e fracos assim como as oportunidades e as ameaças da empresa ou área de negócio, ou seja, levar a cabo uma análise SWOT.

Uma empresa que detenha forças internas como competências distintivas, reputação no mercado ou capacidade de inovação poderá ampliar a sua influência no setor, reforçar a visibilidade da marca, participar na definição de normas e políticas públicas e abrir novos canais de negócio.

Pertencer a Associações ou Redes também poderá mitigar algumas fraquezas, compensando por exemplo limitações de escala, recursos ou notoriedade através do acesso a conhe­cimento especializado, partilha de infra­estruturas, formação, benchmarking e poder de negociação coletivo.

A empresa pode, através do associativismo, aproveitar oportunidades tirando partido das tendências identificadas na análise PESTAL, como por exemplo do acesso a determinados incentivos públicos, de parcerias para inovação, da partilha de boas práticas ESG ou da abertura de novos mercados.

Em paralelo, a pertença a associações ajuda a reduzir ameaças ou riscos associados à complexidade regulatória, à volatilidade económica e instabilidade das cadeias de abasteci­mento ou à escassez de talento.

A cultura, a liderança e os valores da empresa são também determinantes na adoção de uma estratégia  de pertença a Associações ou Redes, nomeadamente, a existência de maior ou menor abertura à cooperação, partilha, participação e contribuição para a comunidade.

Se após esta análise a empresa decidir que faz sentido pertencer a Associações ou a Redes é importante clarificar os benefícios que pretende obter. 

2. Definição dos objetivos a alcançar

Cada negócio, cada empresa é um caso específico, sendo que a realização das análises apresentadas anteriormente permitirão identificar possíveis objetivos, como por exemplo o acesso a conhecimento e inovação; influência e posicionamento no ecossistema ou sinergias e oportunidades de negócio.

A próxima etapa é identificar Associações ou Redes que permitam obter os benefícios pretendidos.

3. A que Associações ou a que Redes fará sentido pertencer?

Para responder a esta pergunta há que analisar aspetos como:

• A proposta de valor da Rede ou da Associação verificando se responde


aos objetivos ou benefícios identificados.

• A aderência estratégica de modo a escolher redes alinhadas com a visão, valores e prioridades do negócio.

• A qualidade da rede, avaliando a representatividade dos membros, a diversidade de setores e a capacidade de gerar valor.

• O nível de envolvimento solicitado e perceber se tem condições para participar ativamente, se for o caso, em grupos de trabalho, eventos e projetos colaborativos.

• O investimento associado avaliando não só o valor financeiro, mas também o tempo e os recursos necessários face ao retorno potencial.

Em suma, a decisão de integrar uma Associação ou uma Rede deve ser um ato de reflexão e intenção. Os

recursos são escassos, pelo que a adesão não deve resultar apenas de oportunidade ou conveniência, mas de uma análise cuidada do contexto externo e interno, da definição clara dos benefícios a alcançar e da escolha das parcerias que melhor potenciem a estratégia de negócio.

Num mundo em rápida transformação, as redes certas podem acelerar o crescimento, impulsionar a inovação e reforçar a resiliência das empresas. A capacidade de colaborar de forma estratégica pode representar uma das maiores vantagens competitivas do futuro.

Também neste caso parece que podemos aplicar o conhecido provérbio africano: “Se queres ir depressa, vai sozinho; se queres ir longe, vai acompanhado.”




Newsletter Start&Go