12 de Agosto de 2025


GRAÇA CARVALHO

Formadora e Consultora


Os Beatles estavam certos.


- Gestão, Futuro e Comunidade -


Talvez a frase que mais notabilizou os rapazes de Liverpool possa mesmo ser a ferramenta de gestão certa para um mundo que perdeu a audição emocional. Amar, verbo antigo, pré industrial, é talvez o que resta de humano quando tudo o resto parece estar a ser automatizado, digitalizado ou otimizado. A gestão aprendeu a medir produtividade, mas esqueceu-se de medir humanitude.

Enquanto estivermos ocupados com coisas (e com as ficções que as sustentam, como o dinheiro, que Yuval Harari descreve como mais poderosa história alguma vez contada) não precisamos de enfrentar o real: o estado do mundo, o cansaço coletivo, a vertigem do ritmo da vida e o colapso do humanismo.

Somos distraídos funcionais. Produtivos o suficiente para não pensarmos a sério. Um scroll de dois minutos leva-nos à volta do mundo em posts: das torturas de Gaza ao bacalhau à Andaluz, de um resgate heroico do canil de Viana do Castelo ao velho truque indiano para fortalecer as raízes das plantas, da tragédia à ternura doméstica, do horror ao hobby. Um desfile emocional incoerente que nos parece querer anestesiar o espanto.

Na terapia, chamamos a isto dissociação: o momento em que a mente se desliga do sentir para não sofrer. Alguns de nós optam por desligar - ignorantes do privilégio de poder fazê-lo. Durkheim chamava de “consciência coletiva” ao conjunto de valores e sentimentos comuns que nos ligam e dão forma à vida social. Quando esta consciência enfraquece, atingimos um estado de “anomia” (desorientação, perda de sentido, isolamento). É exatamente isso que testemunhamos hoje: uma sociedade tecnologicamente conectada, mas moralmente frágil. Muita informação, pouca empatia. Muito networking, pouca comunidade.

Qualquer criança sabe de cor o que os adultos esqueceram: os maiores super-heróis são os que protegem a comunidade. Os vilões, exploram-na para seu proveito individual. O associativismo, a forma mais simples e antiga de estarmos juntos, parece ter hoje mais de caridade do que de cidadania. É tratado como um passatempo das almas sensíveis, uma atividade “extra” para quem tem tempo livre e coração generoso. Mas é no associativismo que se edifica o tecido de um povo, um segmento de que o mercado se desprendeu. A cidadania baliza-se por valores eternos e simples

que têm muito a ensinar à economia: cooperar, escutar, cuidar. Tudo exercícios naturais que foram lentamente retirados do quotidiano humano, por força de rotinas, automatização e individualização. O bolo económico (e os outros bolos: o do prestígio, o do glamour) raramente chega à mesa das causas humanas. Estas (que servem pessoas em vez de acionistas) vivem do que sobra da abundância dos afortunados. São tão poucos que lhes conhecemos os nomes. Os que dão sem publicitar, os que inspiram sem brilhar, os que lideram sem dominar. No fundo, os que normalizam o amor. As coisas comuns (como vizinho a ajudar o outro, um amigo que não nos julga ou uma mãe a embalar o seu filho) não nos surpreendem nem geram manchetes. Aceitámo-las como gestos espontâneos, que não se edificam com prémios, selos ou bandeiras. Assentam na essência do comportamento humano: cooperar, escutar, cuidar. Já as


Talvez o amor seja a tecnologia mais avançada que ainda não aprendemos a usar.

 

organizações, se se orientam por estes princípios, são diferentes, corajosas, criativas.

Mas as empresas podem ser instrumentos de aceleração, sem deixar de ser instrumentos de sentido.Basta que comovam tanto o mundo que deixem de ser notícia.

A solidariedade comove-nos porque é rara. Comover é mover com o outro, com o planeta, com o tempo que resta. O legado de uma organização, que transcende o objecto que ela produz e a geração que emprega, é um repertório de gestos que sobrevive ao lucro anual.

E se de um lado está inegavelmente o amor, o que estará no lado contrário?

Uma resposta simplória poderia assumir que o dinheiro é o centro de todos os males. Eu diria que no seu lugar está a indiferença - o olhar que não quer ver, o ouvido que não quer escutar, a mão que recusa oferecer ajuda. E quem decide o nível de consciência social de uma organização não é só o seu líder. Qualquer um de nós que se oponha a que o lucro seja o único critério, previne-nos de habitar um mercado cheio de coisas e pobre em sentido. No mundo contemporâneo, as organizações socialmente conscientes celebram iniciativas de intra-empreendedorismo (intrapreneurship) i.e., de forma simples, o empreendedorismo dentro da organização.

É uma filosofia cultural que reconhece que a inovação e o impacto social podem e devem nascer de dentro, através das pessoas que já pertencem à organização. Um intrapreneur é alguém que age como se fosse empreendedor, mas dentro de uma empresa existente: propõe novas ideias, produtos ou modelos de trabalho, desafia o status quo e procura gerar valor (não apenas financeiro, mas humano, social ou ambiental). É o 

arquétipo do agente de mudança interna. 

Podemos ser intrapreneurs se:

- decidirmos reduzir desperdício e criar um projeto de sustentabilidade;

- propusermos um programa de voluntariado;

- desenharmos um produto acessível a minorias;

- ou mudarmos uma prática injusta porque “não conseguimos mais fingir que não vemos”.

Assim, já não precisamos só de líderes generosos para fazermos a diferença. Todos podemos, à nossa escala, contribuir para o superorganismo social. Importa lembrar que na sua origem, a solidariedade é qualidade daquilo que é firme, que se sustenta em conjunto. E que nada frágil sobrevive sozinho. As abelhas sabem disso: não trabalham para a rainha. Trabalham para a colmeia. O benefício coletivo não é um excedente colateral. As operárias alimentam a rainha, regulam a temperatura, defendem o ninho, produzem mel e cera e até cuidam das larvas. Mas o seu comportamento é guiado por um instinto coletivo - o tal superorganismo. O que elas realmente fazem é trabalhar para o bem comum, e a sobrevivência da rainha é consequência natural disso, não o objetivo.

Da mesma forma, debaixo do solo que pisámos, fungos subterrâneos formam redes invisíveis entre as árvores, partilham nutrientes, comunicam perigo, regeneram o que está ferido. É a mycorrhizal network: uma internet biológica que faz o sistema vivo prosperar por ser genialmente interdependente. As nossas empresas também podem funcionar como sistemas vivos, com ecossistemas porosos. Mas esquecemo-nos disso porque lidamos com produtos, não com pessoas. Mesmo que os “recursos humanos”, nos posicionem como matéria-prima.

 





Pepe Mujica disse que chegou ao fim da vida sem ter conseguido mudar nada. Eu discordo. A mudança não se mede em números, mas na diferença invisível que uma alma causa noutra. Enquanto continuarmos a correr atrás de selos de sustentabilidade, prémios de inclusão e certificados de diversidade, habitamos um mundo que se esqueceu dos Beatles. A virtude institucionalizada é verniz. Não precisamos dela. Precisamos de gestos pequenos, constantes, que não cabem em campanhas, nem acabam em manchetes. Precisamos de tantos gestos e tão pequenos que já não comovem as nossas almas.

Precisamos que o cuidado não seja um KPI, mas uma extensão natural do tecido da gestão.

Somos unânimes a admitir que o crescimento individual é um mito da modernidade. Sabemos inteiramente que nenhuma pessoa é feliz sozinha. Pode até ser forte, mas não será nunca feliz. As nossas empresas sobem montanhas sozinhas e chegam muitas vezes a cumes vazios. Feitos notáveis que só comovem o alpinista. O planeta não precisa de mais alpinistas nem de impérios individuais. Precisamos de ecossistemas solidários.

Talvez o amor seja a tecnologia mais avançada que ainda não aprendemos a usar. Requer vulnerabilidade, exige presença, não escala facilmente.

Os Beetles estavam certos: “All you need is (more) love”. Esta tese aponta o Amor como o ato mais revolucionário do mundo. E talvez até o mais rentável, se medirmos o lucro em vidas tocadas e não em gráficos trimestrais. Sejamos abelhas. Polinizemos o mundo, mesmo que com gestos colaterais. E que o amor (esse bem escasso) volte a circular como moeda de valor absoluto.



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