GRAÇA CARVALHO
Formadora e Consultora
Os Beatles estavam certos.
- Gestão, Futuro e Comunidade -
Talvez a frase que mais notabilizou os rapazes de Liverpool possa mesmo ser a ferramenta de gestão certa para um mundo que perdeu a audição emocional. Amar, verbo antigo, pré industrial, é talvez o que resta de humano quando tudo o resto parece estar a ser automatizado, digitalizado ou otimizado. A gestão aprendeu a medir produtividade, mas esqueceu-se de medir humanitude.
Enquanto estivermos ocupados com coisas (e com as ficções que as sustentam, como o dinheiro, que Yuval Harari descreve como mais poderosa história alguma vez contada) não precisamos de enfrentar o real: o estado do mundo, o cansaço coletivo, a vertigem do ritmo da vida e o colapso do humanismo.
Somos distraídos funcionais. Produtivos o suficiente para não pensarmos a sério. Um scroll de dois minutos leva-nos à volta do mundo em posts: das torturas de Gaza ao bacalhau à Andaluz, de um resgate heroico do canil de Viana do Castelo ao velho truque indiano para fortalecer as raízes das plantas, da tragédia à ternura doméstica, do horror ao hobby. Um desfile emocional incoerente que nos parece querer anestesiar o espanto.
Na terapia, chamamos a isto dissociação: o momento em que a mente se desliga do sentir para não sofrer. Alguns de nós optam por desligar - ignorantes do privilégio de poder fazê-lo. Durkheim chamava de “consciência coletiva” ao conjunto de valores e sentimentos comuns que nos ligam e dão forma à vida social. Quando esta consciência enfraquece, atingimos um estado de “anomia” (desorientação, perda de sentido, isolamento). É exatamente isso que testemunhamos hoje: uma sociedade tecnologicamente conectada, mas moralmente frágil. Muita informação, pouca empatia. Muito networking, pouca comunidade.
Qualquer criança sabe de cor o que os adultos esqueceram: os maiores super-heróis são os que protegem a comunidade. Os vilões, exploram-na para seu proveito individual. O associativismo, a forma mais simples e antiga de estarmos juntos, parece ter hoje mais de caridade do que de cidadania. É tratado como um passatempo das almas sensíveis, uma atividade “extra” para quem tem tempo livre e coração generoso. Mas é no associativismo que se edifica o tecido de um povo, um segmento de que o mercado se desprendeu. A cidadania baliza-se por valores eternos e simples
que têm muito a ensinar à economia: cooperar, escutar, cuidar. Tudo exercícios naturais que foram lentamente retirados do quotidiano humano, por força de rotinas, automatização e individualização. O bolo económico (e os outros bolos: o do prestígio, o do glamour) raramente chega à mesa das causas humanas. Estas (que servem pessoas em vez de acionistas) vivem do que sobra da abundância dos afortunados. São tão poucos que lhes conhecemos os nomes. Os que dão sem publicitar, os que inspiram sem brilhar, os que lideram sem dominar. No fundo, os que normalizam o amor. As coisas comuns (como vizinho a ajudar o outro, um amigo que não nos julga ou uma mãe a embalar o seu filho) não nos surpreendem nem geram manchetes. Aceitámo-las como gestos espontâneos, que não se edificam com prémios, selos ou bandeiras. Assentam na essência do comportamento humano: cooperar, escutar, cuidar. Já as
Talvez o amor seja a tecnologia mais avançada que ainda não aprendemos a usar.