10 de Janeiro de 2026


ALEXANDRA O'NEIL

Diretora Executiva no Grupo Lusíadas Saúde e Diretora no ISCTE Executive Education


O Poder da Rede: Perspectivas Contemporâneas sobre o Associativismo



O fenómeno do associativismo, tantas vezes reduzido a uma leitura meramente organizacional ou instrumental, merece ser compreendido na sua profundidade histórica e sociológica, pois nele se revela uma das formas mais consistentes de exercício da cidadania e de mobilização colectiva.



A

o longo de diferentes épocas e contextos, as associações desempenharam papéis determinantes na articulação de interesses, na defesa de direitos e na construção de alternativas sociais, económicas e culturais, constituindo-se como espaços privilegiados de coesão e de participação.

A rede, enquanto metáfora e enquanto realidade concreta, exprime a interconexão entre sujeitos individuais que, reconhecendo a limitação das suas acções isoladas, optam por se vincular a um colectivo capaz de ampliar a sua capacidade de influência e de acção.

Não será pertinente perguntar até que ponto esta escolha traduz não apenas uma necessidade estratégica, mas também um desejo humano profundo de pertença?

Neste sentido, o associativismo não pode ser visto apenas como uma agregação de vontades; é, sobretudo, um processo dinâmico de construção de capital social, de partilha de saberes e de reforço da confiança mútua, constituindo um verdadeiro mecanismo de transformação social.

Na contemporaneidade, marcada por intensas transições tecnológicas, desafios ambientais de escala global e mutações nas formas de trabalho, a pertença a redes associativas adquire renovado significado. Já não se trata apenas de garantir representação institucional ou de assegurar benefícios imediatos, mas de criar ecossistemas colaborativos que potenciem inovação, promovam aprendizagens permanentes e consolidem práticas de solidariedade. E aqui coloca-se a questão: estaremos, enquanto indivíduos e comunidades, dispostos a substituir a lógica da


competição pela lógica da interdependência?

A rede associativa revela-se igualmente estruturante na esfera económica, ao criar condições para a circulação de informação, o acesso a oportunidades partilhadas e a constituição de alianças estratégicas que dificilmente seriam alcançáveis de forma isolada. Não será legítimo, então, interrogar-nos sobre a real dimensão do poder que advém da cooperação?

É certo que o associativismo não deve ser romantizado como panaceia universal, pois enfrenta tensões internas, riscos de burocratização e desafios na manutenção da coesão. No entanto, o seu potencial enquanto espaço de experimentação social e de inovação mantém-se incontornável.

A rede, ao reunir diferentes perspectivas, interesses e competências, não elimina as divergências, mas



possibilita o seu confronto produtivo, transformando a diversidade em recurso. Será precisamente na forma como gerimos essas tensões que se decide a vitalidade do tecido associativo?

Assim, falar do poder da rede equivale a reconhecer a centralidade do associativismo na construção de sociedades mais resilientes, mais inclusivas e mais capazes de responder à complexidade do presente. Num tempo em que a fragmentação ameaça corroer os laços sociais, a prática associativa reafirma-se como exercício de confiança e de responsabilidade colectiva, cujo alcance ultrapassa largamente a soma das vontades individuais e se projeta como alicerce de futuros mais sustentáveis.

A pergunta final impõe-se:

“  

estaremos preparados para assumir plenamente essa responsabilidade partilhada?

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