19 de Abril de 2021











ANDRÉ PINHEIRO

Direção de Qualidade


Cultura de Arco e Flecha


Ao contrário do que acontece na maioria dos países do planeta, o desporto nacional do reino do Butão não é o futebol, mas sim o tiro com arco. Mas da mesma forma que o futebol é vivido com paixão pelos seus adeptos no Ocidente, também aqui o arco e flecha são jogados com uma atitude muito própria.



É normal este desporto ser praticado com distâncias 2x superiores à distância olímpica de 70m, e até praticado com a ajuda de álcool. Nestes casos, à medida que o torneio vai avançando, os partici­pan­tes vão bebendo uma bebida tradi­cional local (de seu nome “ara”), e se há quem diga que assim até tem melhor desempenho, também há quem tenha acidentes…

O Butão é atualmente conhecido por ter um Ministério da Felicidade, que se dedica a estudar o que contribui para a felicidade da população, com inquéritos específicos de centenas de questões, e que resultam no índice de “Felicidade Nacional Bruta”. Quando foi apresentado num fórum das Nações Unidas em 1998, fez muitas cabeças virar nos governos do planeta.

Duvido que a empresa do leitor tenha um departamento da felicidade (existem alguns, mas poucos), mas seguramente se preocupa com a cultura empresarial e a satisfação dos seus colaboradores. Hoje em dia não é raro ouvirmos falar de em­presas que proporcionam condições para os seus trabalhadores relaxarem, diver­tirem-se, ou terem férias pagas. Ou então atividades extra-profissionais, tor­neios de futebol, jantares de grupo. Tudo no sentido de proporcionar con­di­ções para que as pessoas se sintam ali­nha­das com os objetivos da empresa, empe­nhadas em fazer o que podem para atin­gi-los porque sentem-se como parte dela. Em bom por­tuguês: para que vis­tam a cami­sola. “Mas na minha empresa há pessoas que já lá estão há 30 anos, não vai mu­dar”, é algo que se ouve com frequência, mas não tem que ser assim.


A Campbell, produtora de sopas enlatadas que se tornaram famosas pelos quadros de Andy Warhol de 1962, estava com problemas de vendas no início de 2001, quando entrou um novo CEO. Este optou por atacar o nível de envolvimento dos trabalhadores, porque achava que “para ganhar no mercado, primeiro temos de ganhar no trabalho” (“to win in the Marketplace, first we need to win in the workplace”). E resultou.

Quase todos os referenciais nor­mativos propõem a auscultação dos colaboradores da empresa, seja para perceber os seus anseios quanto às condições de segurança no trabalho e na utilização de equipamentos (ISO45001), seja para receber sugestões de melhoria ou insatisfação (ISO9001), por exemplo. Muitas vezes estes são apenas recolhidos porque é um requisito obrigatório, mas e nos preocuparmos em dar uma _______

 resposta a uma sugestão ou um receio, mesmo que seja negativa, estamos a dar importância à pessoa que a fez.

Estamos a mostrar-lhe que o que diz é ouvido, e isso vale muito no envol­vimento das pessoas. Se damos tanta importância à voz do cliente, também devemos dar à voz do colaborador, porque eles próprios são os nossos clientes e fornecedores internos. A própria AIAG indica no seu manual da ferramenta “FMEA” que o grupo encar­regue de elaborar esta análise de riscos integre também um operador da linha. 

Não é apenas para fazer número, é para ouvir a sua opinião, perceber quais os riscos que vê uma pessoa que está no chão de fábrica todo o dia, e que põe “a mão na massa”, e que por isso se apercebe de situações que quem está no escritório não imagina.

E se fizermos isso, e se levarmos ____

todos a jantar fora, e se colocarmos uns puffs e uns matrecos no escritório, vamos ter toda a gente envolvida, feliz e contente? Provavelmente não, afinal é difícil agradar a gregos e troianos, e além disso o envolvimento não se vê apenas nestas iniciativas, mas também na forma como se faz a gestão do dia-a-dia. Também o reino do Butão, na classificação mais recente das Nações Unidas quanto ao nível de felicidade da população, disponibilizada em Março de 2020, surgia na posição n.º 97 (um ranking liderado pela Noruega). É claro que isto é sempre algo subjetivo e depende muito dos critérios de avaliação, pois se para um ocidental a suposta felicidade se consegue muito à custa de bens materiais, já para um oriental (e mais ainda num país algo fechado e com poucos recursos) os valores serão seguramente outros.




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