12 de Janeiro de 2026


ANDRÉ PINHEIRO

Direção de Qualidade


O diretor de qualidade trabalha para ser despedido!


Quando soube que o tema desta edição iria ser o associativismo, surgiu-me a memória de ter lido sobre um episódio ocorrido na 2ª Guerra Mundial.



Na noite de 1 de Agosto de 1943, nos mares do Pacífico Sul, o navio-patrulha PT-109, em conjunto com vários outros, atacou um comboio de navios japoneses conhecido como o “Tokyo Express”, pela regularidade com que abastecia as linhas de combate com soldados e mantimentos. Mas os navios do comboio resistiram ao ataque (até porque os torpedos lançados falharam todos os respetivos alvos) e na resposta o navio PT-109 acabou por ser atingido, com vários dos tripulantes a caírem à água. Dois deles nunca foram encontrados, enquanto os restantes conseguiram, na sua maioria, regressar ao que restava do navio, com dois a serem “rebocados” pelo tenente John, que nadou para os salvar. O barco em destroços acabou por se aguentar durante 1 dia até virar.

Sem hipóteses de ficar nos destroços, os homens decidiram então nadar para um ilhéu a cerca de 5km, parte do arquipélago das Ilhas Salomão.



A distância era grande, mas o tenente John tinha sido membro da equipa de natação na universidade de Harvard, e por isso voltou a rebocar (com uma corda que segurava com os dentes) um dos feridos, enquanto os outros tripulantes bons nadadores puxaram também outros feridos numa prancha improvisada.

Assim que todos chegaram à ilha, apenas habitada por aves e alguma vegetação, o tenente John achou que ainda corriam risco de serem detetados por patrulhas japonesas, e por isso nadou a várias outras ilhas situadas a poucas centenas de metros, ocasionalmente descansando agarrado a recifes de corais, para tentar perceber onde estavam os navios, tanto japoneses como navios americanos que os pudesse salvar.

Embora não tenha visto nenhum barco americano, aliviou-se por não ter visto barcos japoneses, regressando ao ilhéu original, que tinha o nome de Plum Pudding (“Pudim de Ameixa”), hoje chamada de ilha Kasolo.

Dois dias depois, a 4 de Agosto, o jovem tenente lidera a sua equipa num esforço para atingirem a ilha Olasana,




na esperança de, por esta ser maior, encontrarem algo para comer.Mas apenas encontraram cocos e, novamente, com o receio de encontrarem patrulhas inimigas, optaram por não explorar toda a ilha. Por isso, no dia seguinte, John segue com um outro soldado para uma outra ilha, a mais próxima de um estreito onde os barcos passam habitualmente. Ao chegar lá, os dois homens encontram destroços de um barco japonês, ainda com água potável e alguns mantimentos, e até uma pequena canoa individual. E também encontram 2 nativos, que fogem ao ver os dois militares. No entanto, ao regressar à ilha Olasana, encontram de novo os 2 nativos, que como tinham fugido de repente, ficaram cansados e pararam nessa ilha para comer alguns cocos, tendo encontrado os militares feridos, com quem acabaram por travar conhecimento.

O John convence os nativos a enviarem uma mensagem à marinha americana, mas na ausência de papel e caneta, um dos nativos sugere rasgar a casca de um coco, de modo a escrever uma pequena mensagem, com o nome






Fonte:JFK Museum Store


da ilha em que estavam, a quantidade de tripulantes vivos, e um pedido de ajuda.

Os nativos partem então na sua canoa para transmitir a mensagem à marinha americana, ficando novamente os militares na ilha. John decide então seguir na canoa novamente com um dos outros rapazes até à ilha onde tinham inicialmente encontrado os nativos, e lá encontram mais comida. Mas no dia 07 de Agosto encontram novamente outros nativos, que traziam com eles uma mensagem do oficial americano Reginald Evans. Este pedia a John para se encontrar com ele numa outra ilha, para assim poderem definir o plano de resgate da equipa.

Para que não fosse detetado por barcos japoneses, os nativos esconderam o jovem tenente nos seus barcos, debaixo de folhas de árvore, até chegarem ao posto do oficial. Ao definir o resgate com o oficial Evans, John insistiu para que o recolhessem a ele (em vez de ficar na segurança do posto naval), para que ele pudesse guiar o resgate até aos companheiros.

Na manhã do dia 08 de Agosto, o

barco de resgate, sob as orientações do tenente John, chega à ilha Olasana e recolhe os tripulantes, exaustos mais de 1 semana após o seu barco ter afundado.

O jovem tenente guardou para sempre esta experiência,que serviu também para definir o seu perfil de liderança, preservando e guardando aquele pedaço de casca de coco encapsulado num recipiente de madeira, que acabou servir de pisa-papéis na mesa da presidência, na sala Oval.

Da sala oval?

Ah, sim, porque o seu nome completo do jovem tenente era John Fitzgerald Kennedy, o famoso JFK.

Esta é uma história que parece não ter necessariamente nada a ver com a Gestão da Qualidade, mas antes com associações improváveis e superação. Mas isso é também parte de uma lógica “Kaizen”, de melhoria contínua.as sempre achei que a qualidade não é um exclusivo de quem trabalha nesse departamento, bem pelo contrário.

Aliás, um dos meus motes

sempre foi “o diretor de qualidade trabalha para ser despedido!”, porque o objetivo deve ser o de que todos tenham noção do que é necessário fazer para ter um produto ou serviço “de qualidade”. E isso não se resume a cumprir os requisitos das normas, mas antes em trabalhar em sintonia para entender o que pode ser um risco, ou que pode correr mal, como podemos trabalhar em conjunto para encontrar soluções. Quando isso acontecer de forma orgânica e natural, então o trabalho do responsável de qualidade está feito e este deixa de ser necessário.

Para mim, a Qualidade e a procura da melhoria contínua devem fazer parte de uma filosofia, um ideal, inserido direta ou indiretamente em todos os produtos da empresa, porque o objetivo subjacente a qualquer atividade que se quer duradoura deve ser o de melhorar sempre, pois isso leva à eficiência dos processos, à sua otimização e consequentemente ao lucro.


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