2 de Maio de 2026


Autor mais lido em 2025

O Prémio "Autor Mais Lido" da Start & Go distingue anualmente o autor cujos artigos registaram maior interesse e leitura por parte da comunidade da revista digital ao longo do ano.



A

distinção pretende reconhecer o contributo dos autores que, através das suas reflexões e partilha de conhecimento nas áreas da gestão, empreendedorismo, liderança e inovação, mais impacto geraram junto dos leitores. O vencedor, em 2025, foi o José Carlos Pereira.

Start & Go – Antes de dominar a temática das vendas, houve algum momento no teu percurso em que vender foi especialmente difícil? Em que medida essa experiência mudou na forma como hoje encaras as vendas?

José Carlos Pereira - Sim, claro que sim. E foi precisamente quando percebi que a competência técnica, isolada, não vende. Lembro-me bem de estar envolvido num projeto internacional complexo (ainda hoje vivo casos similares), com uma solução tecnicamente sólida, bem preparada e com uma proposta detalhada. Eu acreditava que, se a solução fosse boa, o cliente iria perceber. E não percebeu, o que me fez perder um contrato. Mais tarde percebi o erro: eu estava a explicar e muito focado em características e especificações técnicas… quando devia estar a influenciar a decisão e perceber o processo de decisão. A neurociência explica isto bem. O cérebro decide primeiro de forma emocional e só depois racionaliza (Kahneman, sistema 1 e sistema 2). Eu estava a falar para o sistema 2. O decisor estava a decidir no sistema 1. E perceber isto mudou a minha abordagem. Hoje encaro as vendas como três coisas: diagnóstico antes de proposta; Influência antes de explicação; e dominar o processo de decisão antes de detalhar. E, acima de tudo, aprendi uma lição: não perde quem tem a pior solução. 




... no mercado atual, o maior risco não é perder clientes, é ser indiferente para eles e nas suas decisões de compra.

José Carlos Pereira - Especialista em Vendas e Negócio Internacional   

Perde quem tem menos influência no processo de decisão (quem Compra, Utiliza, Paga, Influencia, Decide, Implementa e Sabota, CUPIDIS, num comité de decisão, seja ele B2B ou mesmo B2C).

S&G - Se tivesses de explicar o que é vender a alguém, usando apenas uma metáfora do dia a dia, qual seria — e porquê?

Vender é como dar consultas. Ajudar alguém a tomar uma decisão que eventualmente não a tomaria tao certa se não tivesse a minha ajuda. E isso é acrescentar valor. O bom vendedor faz perguntas, explora dores, entende o contexto, mede riscos, explica as consequências e só depois recomenda. Porque vender não é convencer, é reduzir o risco da decisão para o cliente. E há um detalhe importante: o cliente não compra a solução. Ele compra bem mais a tranquilidade e segurança de ter escolhido bem.

S&G - Que ideia muito popular na gestão das vendas consideras sobrevalorizada — e qual é a verdade desconfortável que poucos gostam de admitir?

A ideia mais sobrevalorizada é a motivação. Há uma obsessão com equipas motivadas, quando o verdadeiro problema é outro. Para mim equipas desmotivadas são muitas vezes o sintoma de processos fracos, objetivos pouco claros ou uma estratégia errada. Outra ideia forte é que a maior objeção de um vendedor, pela minha experiência, é ele próprio. Uma verdade que poucos gostam de admitir é que nem toda a gente quer, ou consegue, vender. Vender é para corajosos com muita robustez mental e gestão emocional.

S&G - Ao longo da tua experiência, o que distingue verdadeiramente os gestores que “sabem” dos que “fazem acontecer”, mesmo com menos recursos?

Os que sabem analisam e medem. Os que fazem acontecer tomam decisões imperfeitas e rápido. Mas a grande diferença não está na ação, mas sim no foco. Os gestores que fazem acontecer: medem o que influencia o resultado (CPIs), e não apenas o resultado (KPIs); falam diariamente com clientes ou com a linha da frente (não esquecem a operação); simplificam processos (menos é mais); e assumem responsabilidade total pelos resultados.

Não perguntam “porque não funcionou?”. Perguntam “o que vamos testar a seguir?”. 

Atividade e resultados são assuntos distintos. 

Alinhar objetivos individuais com objetivos coletivos tem muita arte, assim como mobilizar e executar através dos outros a nossa estratégia.

S&G - Se pudesses deixar uma única pergunta para os leitores da revista — algo que eles deveriam estar a perguntar sobre o seu negócio, mas provavelmente não estão — qual seria?

Apenas esta: se eu fosse o meu cliente, escolheria a minha empresa? E porquê? Muitas empresas respondem a isto com argumentos internos como qualidade, experiência, serviço e inovação. Quando o cliente só esta preocupado com o que podemos fazer por ele tendo em atenção: o risco percebido; o esforço da mudança; a confiança no decisor; e o impacto pessoal da decisão. A questão, quase sempre, é posicionamento. Porque no mercado atual, o maior risco não é perder clientes, é ser indiferente para eles e nas suas decisões de compra.


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