Essa robustez terá de ser alicerçada na diversificação dos mercados, na solidez financeira, na capacidade de inovação e em instituições económicas capazes de responder com rapidez a contextos de crise. A aposta na inovação merece uma referência especial, pois a diferenciação da oferta permite às empresas competir com base no valor e não apenas no preço. Por outro lado, a flexibilidade organizacional e a capacidade de ajustar rapidamente cadeias de valor ou modelos de negócio são também fatores críticos num mundo onde a volatilidade tende a aumentar.
S&G - Na sua perspetiva, que setores da economia nacional estão mais bem preparados para enfrentar cenários de maior instabilidade global?
CB- Portugal possui setores que têm demonstrado uma boa capacidade para lidarem com a adversidade. O turismo é um exemplo claro disso, tendo conseguido recuperar de forma muito rápida após o choque provocado pela pandemia. O setor agroalimentar, especialmente em áreas como o vinho, também apresenta uma forte presença internacional e uma identidade territorial que reforça a sua competitividade. Os setores exportadores especializados, como os ligados aos moldes, aos componentes para automóveis e ao têxtil técnico, têm igualmente demonstrado grande capacidade de adaptação e inovação. Por último, creio que merecem também destaque os setores ligados à tecnologia e aos serviços digitais que têm vindo a ganhar relevância, beneficiando da crescente digitalização da economia.
S&G - Que papel podem desempenhar as políticas públicas na promoção de uma economia mais resiliente e sustentável em tempos de incerteza?
CB - As políticas públicas têm um papel determinante na criação de condições estruturais que favoreçam a resiliência económica. Uma economia mais resiliente exige investimento consistente em qualificação e inovação que são elementos essenciais para assegurar a competitividade empresarial. Com efeito, e eu diria em primeiro lugar, a formação e a educação são o fator mais importante para o crescimento económico sustentado de qualquer país. Ao mesmo tempo, é essencial promover ecossistemas de inovação que permitam às empresas desenvolver produtos e serviços com maior valor acrescentado. Mas tudo isto exige estabilidade institucional e previsibilidade das políticas económicas, sem as quais não há incentivo ao investimento e condições para as empresas planearem estratégias de longo prazo. Em períodos de incerteza, mais do que políticas reativas, são necessárias políticas estruturais orientadas para o reforço da competitividade.
S&G - Como avalia a capacidade das pequenas e médias empresas portuguesas para responder a choques externos, como aumentos dos custos de combustível ou perturbações nas cadeias de abastecimento?
CB - As pequenas e médias empresas portuguesas revelam, talvez mais do que se poderia esperar, uma grande capacidade de adaptação e espírito empreendedor, em especial em épocas de incerteza e volatilidade. No entanto, enfrentam limitações estruturais que podem dificultar a resposta a choques externos. A dimensão média reduzida, a debilidade financeira e a dependência de um número limitado de mercados ou clientes tornam muitas PME vulneráveis a alterações bruscas no contexto económico. Apesar disso, um número crescente de empresas portuguesas começa a conseguir afirmar-se em mercados internacionais através da especialização, da qualidade e da proximidade em relação aos clientes. Quando conseguem combinar essa agilidade com estratégias de internacionalização e inovação, não tenho dúvidas de que as PME se tornam significativamente mais resilientes.
S&G - Que estratégias de gestão e planeamento considera essenciais para que as empresas consigam manter competitividade em contextos de crise prolongada?
CB - Num contexto de grande incerteza, a gestão estratégica assume um papel ainda mais relevante. As empresas devem desenvolver uma capacidade efetiva de antecipação, trabalhando com cenários alternativos que permitam reagir rapidamente a diferentes evoluções do contexto económico. Ao mesmo tempo, torna-se fundamental manter uma gestão rigorosa de custos, reforçando a eficiência operacional, sobretudo em períodos de pressão inflacionista, como o que agora atravessamos. A relação com os clientes e a clareza da proposta de valor são igualmente determinantes. Efetivamente, as empresas que conseguem oferecer valor distintivo no mercado e que, fruto disso, são capazes de criar marcas reputadas, tendem a preservar melhor a sua posição competitiva mesmo em períodos de instabilidade prolongada.
S&G - Na sua opinião, que competências devem os gestores desenvolver para apoiar melhor as organizações em períodos de instabilidade económica?
CB - Os gestores enfrentam hoje contextos muito mais complexos e imprevisíveis do que no passado, o que exige um conjunto alargado de competências. O pensamento estratégico, a capacidade de tomar decisões em contextos de elevada incerteza e uma sólida literacia económica e financeira tornaram-se skills essenciais. Ao mesmo tempo, a liderança e a gestão de equipas assumem particular importância em períodos de crise, ou seja, quando é necessário mobilizar o que cada organização tem de melhor. A compreensão das dinâmicas internacionais, nomeadamente do ponto de vista geopolítico, e a capacidade de aprendizagem contínua são igualmente fundamentais num mundo em rápida transformação.