2 de Maio de 2026


Num Mundo Incerto, a Estratégia é a Melhor Defesa


Carlos Brito, professor universitário e presidente da Delegação Regional do Norte da Ordem dos Economistas, integrou o painel de debate do Encontro de Autores Start e deixou-nos algumas reflexões.



Start & Go - Num contexto internacional marcado por conflitos e instabilidade geopolítica, qual é a importância da resiliência económica para países como Portugal?

Carlos Brito - Posso afirmar que, exatamente por causa da imprevisibilidade que se vive a nível global, a resiliência económica se tornou hoje um elemento central da soberania e da estabilidade de qualquer país. Num contexto internacional marcado por conflitos armados, tensões geopolíticas e crescente fragmentação das cadeias de valor globais, as economias mais vulneráveis são precisamente aquelas que apresentam menor capacidade de adaptação. Para um país como Portugal, que é uma economia muito aberta ao exterior, a capacidade de absorver choques externos assume, por isso, uma importância particular. Aliás, mais do que evitar choques, que fazem parte do funcionamento da economia global, o desafio consiste em garantir que a nossa economia tem condições para resistir, ajustar-se e recuperar rapidamente.

S&G - De que forma as empresas portuguesas podem reforçar a sua capacidade de adaptação perante períodos de crise económica ou de guerra?

CB - As empresas que atravessam melhor períodos de instabilidade são, em regra, aquelas que investiram previamente na sua robustez estratégica.

As empresas devem desenvolver uma capacidade efetiva de antecipação, trabalhando com cenários alternativos que permitam reagir rapidamente a diferentes evoluções do contexto económico.

Essa robustez terá de ser alicerçada na diversificação dos mercados, na solidez financeira, na capacidade de inovação e em instituições económicas capazes de responder com rapidez a contextos de crise. A aposta na inovação merece uma referência especial, pois a diferenciação da oferta permite às empresas competir com base no valor e não apenas no preço. Por outro lado, a flexibilidade organizacional e a capacidade de ajustar rapidamente cadeias de valor ou modelos de negócio são também fatores críticos num mundo onde a volatilidade tende a aumentar.

S&G - Na sua perspetiva, que setores da economia nacional estão mais bem preparados para enfrentar cenários de maior instabilidade global?

CB- Portugal possui setores que têm demonstrado uma boa capacidade para lidarem com a adversidade. O turismo é um exemplo claro disso, tendo conseguido recuperar de forma muito rápida após o choque provocado pela pandemia. O setor agroalimentar, especialmente em áreas como o vinho, também apresenta uma forte presença internacional e uma identidade territorial que reforça a sua competitividade. Os setores exportadores especializados, como os ligados aos moldes, aos componentes para automóveis e ao têxtil técnico, têm igualmente demonstrado grande capacidade de adaptação e inovação. Por último, creio que merecem também destaque os setores ligados à tecnologia e aos serviços digitais que têm vindo a ganhar relevância, beneficiando da crescente digitalização da economia.

S&G - Que papel podem desempenhar as políticas públicas na promoção de uma economia mais resiliente e sustentável em tempos de incerteza?

CB - As políticas públicas têm um papel determinante na criação de condições estruturais que favoreçam a resiliência económica. Uma economia mais resiliente exige investimento consistente em qualificação e inovação que são elementos essenciais para assegurar a competitividade empresarial. Com efeito, e eu diria em primeiro lugar, a formação e a educação são o fator mais importante para o crescimento económico sustentado de qualquer país. Ao mesmo tempo, é essencial promover ecossistemas de inovação que permitam às empresas desenvolver produtos e serviços com maior valor acrescentado. Mas tudo isto exige estabilidade institucional e previsibilidade das políticas económicas, sem as quais não há incentivo ao investimento e condições para as empresas planearem estratégias de longo prazo. Em períodos de incerteza, mais do que políticas reativas, são necessárias políticas estruturais orientadas para o reforço da competitividade.

S&G - Como avalia a capacidade das pequenas e médias empresas portuguesas para responder a choques externos, como aumentos dos custos de combustível ou perturbações nas cadeias de abastecimento?

CB - As pequenas e médias empresas portuguesas revelam, talvez mais do que se poderia esperar, uma grande capacidade de adaptação e espírito empreendedor, em especial em épocas de incerteza e volatilidade. No entanto, enfrentam limitações estruturais que podem dificultar a resposta a choques externos. A dimensão média reduzida, a debilidade financeira e a dependência de um número limitado de mercados ou clientes tornam muitas PME vulneráveis a alterações bruscas no contexto económico. Apesar disso, um número crescente de empresas portuguesas começa a conseguir afirmar-se em mercados internacionais através da especialização, da qualidade e da proximidade em relação aos clientes. Quando conseguem combinar essa agilidade com estratégias de internacionalização e inovação, não tenho dúvidas de que as PME se tornam significativamente mais resilientes.

S&G - Que estratégias de gestão e planeamento considera essenciais para que as empresas consigam manter competitividade em contextos de crise prolongada?

CB - Num contexto de grande incerteza, a gestão estratégica assume um papel ainda mais relevante. As empresas devem desenvolver uma capacidade efetiva de antecipação, trabalhando com cenários alternativos que permitam reagir rapidamente a diferentes evoluções do contexto económico. Ao mesmo tempo, torna-se fundamental manter uma gestão rigorosa de custos, reforçando a eficiência operacional, sobretudo em períodos de pressão inflacionista, como o que agora atravessamos. A relação com os clientes e a clareza da proposta de valor são igualmente determinantes. Efetivamente, as empresas que conseguem oferecer valor distintivo no mercado e que, fruto disso, são capazes de criar marcas reputadas, tendem a preservar melhor a sua posição competitiva mesmo em períodos de instabilidade prolongada.

S&G - Na sua opinião, que competências devem os gestores desenvolver para apoiar melhor as organizações em períodos de instabilidade económica?

CB - Os gestores enfrentam hoje contextos muito mais complexos e imprevisíveis do que no passado, o que exige um conjunto alargado de competências. O pensamento estratégico, a capacidade de tomar decisões em contextos de elevada incerteza e uma sólida literacia económica e financeira tornaram-se skills essenciais. Ao mesmo tempo, a liderança e a gestão de equipas assumem particular importância em períodos de crise, ou seja, quando é necessário mobilizar o que cada organização tem de melhor. A compreensão das dinâmicas internacionais, nomeadamente do ponto de vista geopolítico, e a capacidade de aprendizagem contínua são igualmente fundamentais num mundo em rápida transformação.



S&G - Que mensagem deixaria aos empresários e decisores económicos sobre a importância de preparar as empresas para cenários de crise no futuro?

CB - A história económica mostra-nos que as crises não são episódios excecionais, mas antes momentos que tendem a ser recorrentes ao longo dos ciclos económicos. A melhor forma de enfrentar essas crises é preparar as empresas em períodos de estabilidade, investindo em fatores de competitividade, em inovação, em capacidade de internacionalização e na qualificação das equipas. Num mundo cada vez mais incerto, as empresas que conseguem diferenciar-se, criar marcas, gerar valor e manter uma visão estratégica de longo prazo são aquelas que vão não apenas sobreviver às crises, mas também sair delas mais fortes.

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