O taxista à boleia dos seus sonhos!

O termo coaching foi usado pela primeira vez por volta de 1830

Luís Marques
15 de Agosto de 2018
O termo coaching foi usado pela primeira vez por volta de 1830, na Universidade de Oxford, como gíria de “tutor particular”, aquele que “carrega”, “conduz” e “prepara” os estudantes para seus exames. Coaching refere-se ao processo em si, o Coach àquele que conduz, e o Coachee é a pessoa conduzida na direção do objetivo que deseja alcançar. 

Hoje, numa viagem de táxi lembrei-me da palavra. Durante a viagem fui tendo uma conversa com o condutor. Veio-me à cabeça que afinal não era só ele que me conduzia a mim numa viagem, mas eu também o conduzia numa viagem a ele próprio, e sobre ele próprio. Começámos a conversa como normalmente se começam as conversas nos táxis, falando-se do tempo, do local, de futebol, da política, etc, e continuando por ali abaixo a grande velocidade até começar a crítica, apenas pela crítica, a tudo e todos. 

Confesso que às vezes desligo completamente e deixo a outra pessoa falar, passando essa pessoa a funcionar apenas como se fosse o som do rádio que, embora esteja ligado, não ouço, ou seja, o ruído de fundo característico do ambiente em que estou. Mas, desta vez, pesou-me a consciência e deu-me vontade de não deixar a conversa descambar. Aceitei o desafio de participar na conversa, tornando o tempo de viagem mais útil para ambos. Para mim, porque interiormente me sentia melhor comigo próprio prestando atenção ao outro, pois, afinal, é uma pessoa, e queria falar. Para ele, porque eu não o iria deixar entrar na típica conversa da treta negativa, arrastando-o também a um estado e comportamento negativo. 

Assim, após as ditas conversas de circunstância, comecei a fazer-lhe perguntas sobre a experiência de trabalho dele, sobre a família, filhos, passatempos e hobbies, etc. Estava perante um homem que, apesar de ser taxista há três anos, nasceu profissionalmente na hotelaria, casou com uma colega de trabalho, que se mantém na hotelaria, como subchefe de cozinha. Ele era barman. Gostava do que fazia, mas, como ganhava pouco, não tinha perspetivas de crescimento profissional (pois os seus chefes eram ainda muito novos e este grupo hoteleiro era pequeno), ele que começou a fazer um part-time no serviço de táxi. E foi uma questão de tempo até largar a hotelaria e passar a ser condutor de táxi a tempo inteiro, enquanto empregado por conta de outrem, até porque, nas palavras dele, “a família aumentou e há que trabalhar para dar uma boa educação a um filho de cinco anos”. 

Gosta do que faz, e diz que, agora, ganha mais, tem mais responsabilidade e mais autonomia, e anda mais satisfeito. 

Entre outras perguntas, perguntei-lhe o que é que ele se via a fazer no futuro e o que é que o filho diz sobre a profissão dele. É impressionante a transformação das pessoas quando se muda a conversa, passando a desafiá-las para falarem sobre elas próprias, sua família e seus projetos. 

Depois de ter demonstrado alguma surpresa às perguntas que eu ia fazendo, pois, segundo ele, não esperava que um desconhecido lhe fizesse este tipo de perguntas, o homem, depois de dizer que ainda não tinha pensado muito sobre isso, permitiu-se sonhar, e começar a ver o que gostaria que acontecesse. 

Por um lado, tinha o gosto pela hotelaria e restauração, pois nasceu nessa área e a sua mulher continuava nessa atividade. Por outro lado, aprendeu a gostar de ser taxista e não queria perder a liberdade que este trabalho lhe dava, dizia ele. 

Foi engraçado apreciar o fogo de artifício das ideias que foram explodindo na mente dele, não lhe dando, sequer, tempo para as tornar conscientes ou expressar tudo o que lhe vinha à cabeça. Estávamos quase a chegar ao meu destino quando, depois de várias frases incompletas, ele diz: 
- Já sei! O que eu quero mesmo é ter um bar com serviço de snacks, construindo um negócio de família, para mim e para a minha mulher, e mantenho também este serviço de táxi em part-time, trabalhando por minha conta. 

No fim de ter dito isto, olhou para mim com ar verdadeiramente emocionado e satisfeito, e chegámos ao meu destino. Paguei, saí do táxi, e ele entregou-me a mala e disse-me: – Muito obrigado pela ajuda e boa viagem! Cumprimentei-o e fui à minha vida com esta última frase dele a ruminar na minha cabeça por uns momentos… 

O homem tem 42 anos, um trabalho e uma família. A partir daquele momento ficou também com um objetivo para concretizar! 

Ah, e o tempo estava ótimo, céu limpo, sol aberto e boa temperatura!

(1) - https://en.wikipedia.org/wiki/Coaching



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