10 de Janeiro de 2026


MANUELA RIBEIRO

Consultora e criadora da metodologia THE CHOICE – service awareness


COLABORAÇÃO EM REDE: A FORÇA QUE SUSTENTA


Estávamos no início dos anos 90, os vinhos portugueses sentiam a dificuldade de distribuição nos mercados internacionais, dominados por países já consagrados como França, Itália e Espanha e pelos recém-chegados países do “novo Mundo”, como Austrália, Nova Zelândia, Chile, Argentina e Estados Unidos – Califórnia e é neste enquadramento, que as sete maiores empresas de vinhos nacionais resolveram criar o grupo G7 Vinhos.



O

objetivo era claro, conseguir massa critica para serem ouvidos pelos compradores das grandes cadeias de distribuição e pela imprensa especializada. Isolados, eram apenas mais uma empresa de um país ainda à procura do seu lugar de destaque, juntos representavam mais de 60% da produção de vinhos desse mesmo país.

Tive a oportunidade de sentir essa força na primeira pessoa, participei em provas de vinhos em diversos países e vi, dentro da mesma sala, empresas concorrentes, mostrarem os seus melhores produtos – cada empresa procurava ganhar listagens, vendas e espaço na imprensa, mas primeiro era preciso que Portugal como país produtor de vinhos de qualidade fosse reconhecido pelo consumidor – o Todo sobrepunha-se às partes.

Em resumo, o trabalho coletivo do G7 Vinhos trouxe benefícios muito claros, como:

Visibilidade conjunta – Ao atuar sob uma identidade coletiva, conseguia maior impacto na comunicação e na distribuição;

Promoção internacional – Ao participar em feiras e provas de forma conjunta, multiplicava a presença global das marcas individuais;

Fortalecimento da identidade regional – O vinho não é apenas um produto, ele é o resultado de cultura, território, tradição e inovação sustentável, em conjunto, estas dimensões ganhavam mais força.

Nesta mesma lógica, outros grupos de empresas foram surgindo, com identidades muito próprias e que continuaram a fazer crescer o nome de Portugal no mundo, a partir desta visão de conjunto.

Estes movimentos coletivos, funcionavam assim como complemento às ações que as entidades institucionais,



já há muito vinham a materializar com a organização das presenças conjuntas em certames da especialidade.

Benefícios comuns, responsabilidade partilhada

As ações colaborativas e os modelos associativos geram benefícios comuns, mas em simultâneo exigem um reforço da responsabilidade coletiva, sendo assim fundamental compreender que esses benefícios não são “prémios gratuitos”, mas sim fruto de um esforço coletivo, do tempo e da dedicação de cada elemento do grupo.

Isso implica, algo tao simples como garantir a entrega das amostras para expedição para a feira na data combinada, ou pacotes claramente identificados, para evitar que … outras empresas possam correr o risco de organizar os seus stands de forma apressada, porque a transportadora atrasou a entrega, porque os produtos saíram mais tarde do seu local de origem. Ou seja, é necessário:

Respeitar regras e compromissos 





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Vivemos numa cultura empresarial marcada pela competição, muitos empresários foram ensinados a desconfiar dos outros... essa mentalidade dificulta a colaboração e limita o potencial de crescimento coletivo

coletivos, porque a confiança tem de ser o alicerce da rede;

Contribuir ativamente para o grupo, participar nas discussões e escolhas e não apenas esperar as vantagens;

Manter a ética e a transparência em toda a sua atuação, de forma a evitar conflitos de interesse;

Reconhecer que em cada ganho coletivo existe também um ganho individual, mesmo quando no curto prazo, alguns resultados pareçam ser menos claros.

Tal como dentro da atividade especifica de uma empresa, que também é uma rede de colaboração, essa rede só funciona se cada elo assumir a sua parte de responsa­b­ilidade. Cada vez que um elemento da rede procura apenas o seu benefício e não contribui, está a fragilizar toda a estrutura.

Os padrões mentais que bloqueiam

À semelhança das organizações individuais, uma das grandes dificuldades no associativismo e no sucesso das redes de colaboração são as barreiras internas dos seus membros, ou seja, os padrões mentais.

Vivemos numa cultura empresarial marcada pela competição, muitos empresários foram ensinados a desconfiar dos outros, a guardar segredos e a ver a empresa do lado como uma ameaça - essa mentalidade dificulta de forma relevante a colaboração e limita o potencial de crescimento coletivo.

A mudança é assim necessária e passará por:

Evoluir da lógica do “eu ganho, tu perdes” para o “nós ganhamos juntos”;

Reconhecer que a colaboração não significa perder identidade ou independência, mas sim um fortalecimento de todos os elementos do grupo;

 


Entender que a confiança é construída com tempo e consistência, para a qual cada esforço contribui.

Um caminho de transformação

Como capitalizar efetivamente em todos os benefícios criados pelas redes de colaboração e pelos movimentos associativos é uma grande questão, que nos dias de hoje, ganha ainda mais destaque face à complexidade que vivemos.

De acordo com diversas abordagens colaborativas e, sempre dentro de uma perspetiva sistémica, será importante considerar passos como:

Definir uma intenção clara para o objetivo da rede e da associação;

Mapear o sistema em que o grupo de empresas se insere, ouvir de forma aberta, suspender julgamentos, de forma a compreender essa realidade, desafios e oportunidades e distinguir factos de preconceitos;

Redirecionar a atenção, de forma a olhar para os sistemas e problemas de uma forma ampla, ganhar perspetiva, considerar o nível de impacto das ações, para além do curto prazo, e procurar tudo o que beneficia o conjunto;

Deixar ir o velho, no sentido de libertar padrões mentais e práticas que já não servem na realidade atual, apesar de terem sido muito uteis para chegar até este momento;


Quando conseguimos alinhar interesses individuais com o bem coletivo, surgem verdadeiros processos de transformação

 


Deixar chegar o novo, no sentido de estar aberto a ideias emergentes, muitas vezes nascidas da escuta profunda anterior, da partilha transparente de ideias e objetivos e da força da conexão coletiva;

Identificar as soluções em conjunto, participando ativamente na escolha do caminho a seguir, aprendendo com a prática, sabendo que é um projeto conjunto, em que o respeito e a transparência entre as partes é absolutamente fundamental para o sucesso das iniciativas.

Onde podemos chegar?

A verdadeiros processos de transformação, à semelhança do que aconteceu com a criação do G7 Vinhos e dos restantes grupos de produtores que se lhes seguiram – quando era demasiado claro que, de uma forma isolada, não se conseguia o impacto necessário, para que em termos de retalho e de imprensa, os vinhos portugueses conquistassem mais notoriedade.

Naturalmente que muito mais aconteceu, ao nível das entidades institucionais, mas este tipo de iniciativas de unidade do setor privado à volta de um objetivo comum foi fundamental.

Colaborar, talvez seja uma das peças mais relevantes, para conseguirmos gerir de uma forma mais equilibrada todo este momento atual e o desafio não está apenas na criação das redes, mas em sustentá-las na sua evolução, porque isso exige compromisso, responsabilidade partilhada e abertura para deixar emergir novas formas de pensar e agir. 

Quando conseguimos alinhar interesses individuais com o bem coletivo, surgem verdadeiros processos de transformação — no vinho, no agroalimentar, no empreendedorismo ou em qualquer setor.


Colaborar – é preciso!

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